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Estudante da periferia que passou em 7 universidades internacionais vira pesquisadora trainee em Harvard, nos EUA

Por P.A 24H em 26/07/2021 às 05:25:13
Jovem de 19 anos estuda na Nova Southeastern University (NSU), na Flórida, e conseguiu um trainee de pesquisa na Escola de Medicina de Harvard. Isabelly passou em 7 universidades internacionais e virou pesquisadora trainee em Harvard, nos EUA

Arquivo Pessoal

Depois de passar em sete universidades internacionais, uma jovem da periferia de Cubatão (SP) conseguiu entrar para o time de pesquisadores trainees na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Estudante de neurociência, Isabelly Moraes Veríssimo dos Santos, de 19 anos, está há pouco mais de seis meses na Flórida, e saiu do Brasil após conseguir arrecadar mais de R$ 85 mil para custear o primeiro ano de despesas.

A jovem é moradora da comunidade Vila São José, e iniciou os estudos à distância, por causa da pandemia do novo coronavírus, ainda em 2020. Em dezembro, ela embarcou para os Estados Unidos, onde deu início aos estudos presenciais na Nova Southeastern University (NSU), onde conseguiu uma bolsa de US$ 16 mil anuais para bancar os estudos.

Isabelly conta que decidiu se inscrever no programa de extensão de estudos da Escola de Medicina de Harvard durante as férias de verão. “Chegou o summer aqui, que é quando temos quatro meses de férias. Eles [universidades] fazem isso meio que para focarmos no trabalho, algo acadêmico. Usar esse tempo livre para um projeto”, explica.

A jovem aplicou para vários programas de estágio, mas acabou sendo recusada em quatro deles, pois não possuía experiência em pesquisa de laboratório. “Em muitos estágios, falaram que me aprovariam, caso eu tivesse essa experiência, porque meu currículo era bom”, afirma. Diante das recusas, ela decidiu aplicar, também, para um programa de pesquisa de Harvard, que tem como orientador um cientista brasileiro.

Jovem conseguiu ingressar em Harvard por meio de um programa de trainee

Arquivo pessoal

“Eu já tinha admiração por esse pesquisador há muito tempo. Quando comecei a faculdade, ia a todos os eventos que ele fazia, como palestras. Sempre tentava tirar um tempo sobre o trabalho dele”, explica. Após a entrevista, ela soube que havia entrado para o programa de trainee da universidade, no entanto, teve de esperar toda a documentação para saber se conseguiria mesmo estagiar.

Todo o processo durou quase dois meses, segundo Isabelly. “Aqui é uma burocracia trabalhar não sendo um cidadão do país. Teve todo esse tempo esperando a documentação do governo sair, da faculdade, do hospital, enfim, um processo muito exaustivo. Minha família estava acompanhando comigo, junto com meus melhores amigos. Não divulguei para ninguém o que passei, com medo de dar alguma coisa errada, com medo da energia negativa”, brinca.

Programa de estudos

Jovem passou em sete universidades no exterior

Arquivo Pessoal

O professor e pesquisador Rafael Rezende trabalha desde 2012 na universidade, e conta que cada laboratório de Harvard funciona de uma maneira para selecionar estudantes para o programa. “Eu estou no departamento de neurologia, e existe uma divisão entre os professores que constituem esses centros de pesquisa. Cada professor tem uma forma de receber esses alunos. Eles [estudantes] entram em contato com o RH ou direto com o professor”, explica. No caso de Isabelly, o contato foi feito via rede social, por onde eles marcaram uma entrevista.

“Eu faço a entrevista em inglês. A partir daí, defino o projeto que essa pessoa vai se inserir”, diz o professor. Ele afirma que dá sempre preferência a alunos que sejam brasileiros para participarem das pesquisas que desenvolve.

No caso de Isabelly, a seleção ocorreu para projeto que desenvolve um possível tratamento para autismo. “Minha linha de pesquisa envolve o estudo do eixo intestino e cérebro, em doenças neurológicas e distúrbios psiquiátricos”, explica.

Longe de casa

Isabelly chegou em dezembro aos EUA, e a adaptação em outro país, longe da família e dos amigos, não foi fácil, conforme conta. "Nos primeiros meses foi complicado se integrar, conhecer os professores. A língua também foi difícil. Eu tinha a ideia de que sabia falar fluentemente, mas vi que não. Eu tinha muita dificuldade para falar, o sotaque e gírias", explica. Com o tempo, ela conseguiu se adaptar à nova realidade e focar nos estudos.

Centralizar a atenção na faculdade fez com que ela ficasse entre as finalistas do concurso Wonder Woman, realizado pela NSU em março. É um prêmio para as mulheres que mais se destacam na universidade. "Fiquei muito feliz, porque não faz muito tempo que eu estou na faculdade", diz. Além disso, ela também está envolvida em outros projetos, como uma organização que ajuda na adaptação de estudantes brasileiros nos Estados Unidos.

Após alguns meses nos EUA, Isabelly se surpreendeu positivamente em alguns aspectos, como o investimento do país em pesquisas científicas, coisa que observa ser diferente no Brasil. Ela exalta os pesquisadores brasileiros, que, apesar do pouco investimento, se movimentam para ajudar a ciência no país.

"Aqui nos Estado Unidos, eles [país] veem a pesquisa como algo útil. Acho que a gente viu o cenário da Covid que aconteceu no Brasil, a gente enxerga o quanto é necessária a pesquisa ser desenvolvida mais. Com certeza, não estaríamos avançando se não fossem os pesquisadores, que trabalham mesmo não tendo incentivo para isso. Muito do que é feito no SUS e na pesquisa no Brasil é porque as pessoas fazem mesmo não tendo recurso para isso, por amor ao país", finaliza.

VÍDEOS: G1 em 1 Minuto Santos

Fonte: G1

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