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Refugiado congolês que vive no Rio de Janeiro perde nas Olimpíadas; conheça o judoca Popole Misenga

Por P.A 24H em 28/07/2021 às 01:35:52
Após desertar da equipe da República Democrática do Congo em 2013, o atleta do judô voltou ao esporte treinando no Instituto Reação, no Rio de Janeiro. O judoca Popole Misenga, refugiado congolês no Rio, posa para foto perto de sua casa em favela carioca, em foto de 2016

Reuters/Pilar Olivares

O judoca Popole Misenga deixou nesta quarta-feira (28) os Jogos Olímpicos de Tóquio, após perder para o húngaro Krizstian Toth logo na primeira luta. O atleta tem uma relação de proximidade com o Brasil: congolês, ele vive no Rio de Janeiro desde 2013, quando pediu refúgio no país devido à violência política na República Democrática do Congo.

Aos 29 anos, Misenga participou das Olimpíadas pela segunda vez consecutiva como integrante da Equipe Olímpica de Refugiados — uma iniciativa do Comitê Olímpico Internacional que tem apoio da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) para que atletas em situação como a dele tenham como competir em Jogos Olímpicos.

Popole Misenga, de azul, cai em luta contra o húngaro Krisztian Toth no judô das Olimpíadas de Tóquio desta quarta (28). Misenga integra a Equipe Olímpica de Refugiados e vive no Rio de Janeiro

Annegret Hilse/Reuters

A relação do atleta com o judô se relaciona com as dificuldades de Misenga na República Democrática do Congo: ele se aproximou do esporte aos 9 anos, quando foi levado à capital do país, Kinshasa após fugir dos confrontos na região de Kisangani.

Segundo relato da Acnur, Misenga se perdeu da sua mãe, assassinada durante a fuga, e só foi encontrado em uma área de floresta, de onde foi resgatado.

O problema é que nem mesmo o esporte foi capaz de dar proteção ao jovem judoca. Misenga relatou à Acnur que era intensamente cobrado por resultados no judô, sendo inclusive privado de água e comida quando não conseguia vencer.

Saiba mais sobre Popole Misenga no VÍDEO abaixo

REP - Órfãos da Terra: Popole Misenga, judoca congolês, recomeçou a vida no Brasil

"No meu país, eu não tinha um lar, uma família ou amigos. A guerra causou muita morte e confusão, eu tive que aproveitar a chance que eu tive para estar em segurança em outro local", disse, em uma entrevista ao COI.

De acordo com o Ministério da Justiça, o Brasil tem 60 mil pessoas em situação de refúgio. Desses, 26 mil foram reconhecidos em 2020. Seis em cada dez pedidos vieram de cidadãos da Venezuela, que vive situação de grave e generalizada violação de direitos humanos (leia mais sobre refugiados no mundo no fim da reportagem).

Refúgio no Brasil e sucesso no Rio

O judoca Popole Misenga, refugiado congolês, exibe sua credencial de competidor nos Jogos Olímpicos do Rio 2016

Reuters/Pilar Olivares

Misenga viu no Campeonato Mundial de Judô de 2013, organizado no Rio de Janeiro, a chance de escapar da perseguição política: já no Brasil, o judoca abandonou a equipe e pediu refúgio. Além dele, a judoca Yolande Bukasa — que competiu nas Olimpíadas de 2016, mas não participa em Tóquio — desertou do time congolês.

O atleta conseguiu voltar ao judô no Rio de Janeiro ao treinar no Instituto Reação, do judoca brasileiro Flávio Canto. A meta era chegar a uma vaga nos Jogos Olímpicos de 2016, que seria na nova cidade onde Misenga passou a chamar de casa. Foi a primeira edição do evento a contar com uma equipe de refugiados — ovacionada ao entrar no estádio na Cerimônia de Abertura daquele ano.

Na competição, Misenga recebeu o apoio da torcida brasileira, que comemorou muito quando o judoca refugiado venceu a primeira luta sobre um indiano e lamentou a derrota seguinte para um atleta da Coreia do Sul.

Popole Misenga derrota o indiano Avtar Singh : "Essa vitória ficará marcada na história dos Jogos"

Reuters

O carinho com o Brasil ficou, sobretudo após o apoio da torcida brasileira. "No Brasil eu consigo construir minha carreira para chegar aonde almejo. Eu me casei no Rio de Janeiro, tornei-me pai e sou um exemplo a ser seguido", disse, em uma entrevista ao COI.

"Estou lutando para que a vida dos meus filhos seja melhor do que a minha, para que outras pessoas refugiadas se inspirem para alcançar seus sonhos."

Equipe Olímpica de Refugiados

Equipe Olímpica de Refugiados entra no Estádio Olímpico de Tóquio na Cerimônia de Abertura das Olimpíadas, na sexta-feira (23)

David J. Phillip/AP Photo

Pela segunda vez, os Jogos Olímpicos têm um time de refugiados apoiados pelo COI e pela Acnur. No Rio, em 2016, eram 10 atletas. Agora, em Tóquio, são 29 competidores em12 modalidades.

A iniciativa veio para suprir uma questão dos Jogos Olímpicos: o evento convida atletas do mundo inteiro, mas alguns deles precisaram fugir da perseguição em seus países de origem e teriam dificuldades, portanto, em competir sob a bandeira de suas nações.

Segundo o COI, que convoca esses atletas, os critérios para a seleção da Equipe Olímpica de Refugiados foram os seguintes:

Status de refugiados confirmado pela Acnur

Desempenho esportivo nas modalidades

Representatividade de gênero, esporte e regiões do mundo

Histórico pessoal

Segundo dados mais recentes da Acnur, mais de 82 milhões de pessoas em todo o mundo tiveram de deixar seus locais de origem por perseguições, conflitos, violência e violação de direitos humanos. É o maior número já registrado na história.

Quase metade desse total — 48 milhões — é de pessoas que se deslocaram dentro de seu próprio país. Outras 26,4 milhões são consideradas formalmente refugiadas: ou seja, concluíram os protocolos de solicitação de refúgio em outro país.

Fonte: G1

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